Bandas de Música
Quando soou em Ruivães a nova de haver chegado ao Porto o Africano, com a filha, os homens ricos e pobres, da terra e de fora, contribuíram com mais ou menos para se lhes fazer uma espera de estrondo em Famalicão. Contrataram-se as bandas musicais mais em voga, ou mais na berra, como diziam os antigos. Parece que a frase seiscentista foi inventada particularmente para as orquestras daqueles sítios, as quais berram pelas goelas de metal, quando a paixão filarmónica as não exalta do berro ao mugido, do mugido ao urro, e do urro ao bramido. Há ali trombetas que parecem ter assistido ao arrasar-se da Jericó da Bíblia, e se reservam para trovejarem o horrendo sinal da ressurreição em Josafat.
Eram quatro as filarmónicas chamadas a festejarem a entrada de António Duque no Concelho. A música de Landim, famosa por seis cornetas de chaves, que executavam valsas e peças teatrais, de modo que, se Ducis as ouvisse, diria que a ópera lírica balbuciara os seus primórdios entre as florestas druídicas. A banda de Fafião competia com a de Guinfões na substância das trompas e troada das caixas. A de Ruivães avantajava-se às três rivais na delicadeza das modas e sentimentalismo com que as charamelas respiravam o sopro daqueles músicos, cujas bochechas pareciam estar cheias de alma e castanhas assadas.
Sou um homem feliz e digno de inveja. Tenho saboreado os inocentes deleites que prodigalizam ao seu auditório as quatro bandas musicais de Landim, Fafião, Ruivães e Guinfões. Quando algum amigo vai alegrar o ermo de São Miguel de Ceide, chamo logo a música mais delicada, a de Ruivães; principalmente se o amigo é de Lisboa, e frequentador de S. Carlos. O Sr. Visconde de Castilho e seu filho Eugénio são chamados a depor neste processo da imortalidade que vou instaurando ao figle e à requinta, principalmente à requinta de Ruivães. Não vi o Sr. Visconde chorar de prazer, mas observei que S. Exc.ª estava comovido quando a requinta assobiava uns guinchos estridentes da Maria Cachucha.
CASTELO BRANCO, Camilo - Noites de Insónia. Porto : Livraria Chardron, de Lello & Irmão, Editores, 1929. Vol. 1, p. 105-107.





