Teatro
"A abertura do Teatro do S. Carlos, em 1793, e do S. João, em 1798, marca o aparecimento das casas de espectáculo públicas em Portugal. Com o decorrer dos anos iremos encontrar em Lisboa teatros na Rua dos Condes do Salitre e do Bairro Alto (1814). Na 2ª metade do século, juntaram-se os teatros Ginásio (1846), Dom Fernando (1849) e o Trindade. E, no Porto, o Teatro Baquet (1859), o D. Afonso (1885), o Carlos Alberto (1897) e o Avenida.
Eça não é alheio a estas manisfestações e ele próprio tinha sido na sua juventude actor no Teatro Académico enquanto estudante na Universidade de Coimbra. A sua obra reflectirá também o seu fascínio pela arte cénica que ainda hoje continua a ser alimentada por vários grupos de teatro amador e profissional um pouco por todo o país.
"Era no teatro da Trindade, representava-se o Barba Azul.
Tinha começado o segundo ato e o coro dos Cortesãos saía, recuando em semicírculo, com os espinhaços vergados – quando, num camarote, sobre o balcão, à esquerda, o ranger ferrugento duma fechadura perra, uma cadeira arrastada, fizeram erguer aqui, além, alguns olhares distraídos. Uma senhora alta, de pé, despertava devagar os fechos de prata duma longa capa de seda negra forrada de peles escuras (…) ela com um movimento delicado e leve, sentou-se e ficou imóvel de perfil, olhando para o palco.
Fez logo sensação no público amodorrado. (…) havia enchente. (…)
O segundo ato terminava: o regente aos pulinhos, brandia a batuta; os arcos das rebecas subiam, desciam, com o movimento de serras apressadas; agudezas de flautins sibilavam; e o bombo de pé, de óculos com o lenço tabaqueiro deitado sobre o ombro, atirava baquetadas à pele do tambor, com uma mansidão sonolenta. Sobre o palco, Carlota, muito escangalhada, arrastando aos sacões através da corte a sua cauda enxovalhada, gania (…) .
E as coristas, com grenhas desmazeladas, escandalizavam-se, pausadamente, erguendo ora um braço ora outro, com rigidezes de articulações de pau, a Rainha gorda, escarlate, suava, El–Rei Bobeche babava-se, e as palmas e gargalhadas romperam, quando ele e o Conde de Oscar, torcendo-se de facécia nas poltronas reais, colando um contra o outro as solas dos sapatos, fazendo as pernas convergentes dum W patusco!"
QUEIROZ, Eça - A Tragédia da Rua das Flores, Obras Completas de Eça de Queiroz, Vol. II, Rio de Janeiro, Editora Nova Aguilar S.A., 1997, pág. 1115 e 1118





